“Como se pode atacar a pobreza”

Monsenhor Agostinho Jardim Moreira em Mangualde

Começou por falar da tão importante Rede Europeia Anti Pobreza.

Destacou como se pode atacar a pobreza: “é preciso atacá-la não nas consequências, mas nas causas. E isso só é possível depois de um bom diagnóstico. Quem não conhece a realidade cientificamente dificilmente poderá ter uma ação capaz de estancar as doenças nas causas. Muitos pensam que a caridadezinha resolve, não resolve nada. Não é um ato cristão, porque a verdadeira caridade só é possível quando se pratica a justiça. Sem a prática da justiça não é possível praticar a caridade, porque não tenho que dar aos outros por esmola, aquilo que devo ter por ser pessoa.

A Rede atua nas causas, é precioso ir às causas. A pessoa humana é um todo e temos que proporcionar o caminho da sua felicidade, da sua dignidade.

É preciso repensar as formas políticas que muitas vezes são desumanizantes, porque só veem a parte material do ser humano. Quem é o ser humano? Há muita coisa que tem que ser revista. O Senhor Presidente insistiu na resposta tradicional que é muito na linha do ter: ter uma casa, ter comida, cuidados médicos, etc., mas a pessoa só se realiza no ser. Precisamos do mínimo do ter para sermos, enquanto isso não acontecer não estamos a cuidar da pessoa no seu todo.”

Chamou a atenção para a decadência ocidental que pode vir a acontecer, a supremacia da tecnologia sobre o homem. “Vi no palácio uns azulejos em que as imagens estão ao contrário, em que o burro mandava no homem, hoje já não é o burro que manda em nós, mas a tecnologia. Estamos dependentes de tudo e não somos livres. Nesta conjuntura, eu acredito que estamos a gerar um novo mundo, e qual será sociedade que vai nascer? Não sei. É bom que saibamos reter os valores essenciais, os valores da nossa essência, da nossa dignidade. Enquanto ser em relação temos que criar relações sadias, fraternas, com todos e com Aquele que nos criou que chamamos Pai para então sabemos viver em paz. Quem não se relaciona com as pessoas não se relaciona com Deus. Podemos ter num futuro próximo uma leva de gente pagã porque não se sabe relacionar humanamente nem espiritualmente e isto pode ser muito grave.

Estamos a viver tempos difíceis e é preciso trabalharmos em rede para darmos respostas adequadas. Sabe-se que 12% dos pobres são trabalhadores e é importante chamarmos atenção das empresas e do governo.”


“Hoje precisamos de pessoas que sejam verdadeiramente caridosa”

  • No usou da palavra o Pe. Paulo Domingues salientando o eterno problema da pobreza, citando o evangelho “pobres sempre os tereis …”, “ às vezes cuidamos muito dos mais ricos e esquecemo-nos de cuidar e amar os mais pobres. A Igreja tem um papel fundamental no cuidar dos pobres. Hoje a Igreja não pode olhar para o presente com a mesma metodologia do passado, o momento em que a Igreja tirava a esmola para dar aos pobres. Hoje precisamos de pessoas que sejam verdadeiramente caridosas. Todos nós necessitamos de cuidados nas mais diversas vertentes da nossa vida. Hoje temos a pobreza monetária, pobreza de ética, pobreza de valores, de justiça, etc. Como Padre arriscaria a dizer que podemos estar a correr o risco de termos uma pobreza de espírito. Não tenhamos medo de cuidar dos pobres, não tenhamos medo de amar e de sermos amados. A pobreza não diz respeito só aos pobres eu diria até que a pobreza diz mais respeito aos ricos, homens e mulheres que estão no governo, que estão no poder de decisão, quer local quer nacional e europeu. E através deles e com eles temos as ferramentas, a capacidade de darmos resposta aqueles que vivem na primeira pessoa a pobreza. Mas nós também temos a responsabilidade de olharmos para aqueles que mais precisam. Todos necessitamos de ser cuidados. Esta Rede não é de pesca de peixe, mas de cuidado de acolhimento e de aconchego de pessoas. O Papa Francisco diz-nos que necessitamos de ter uma sociedade mais justa, mais equitativa e mais fraterna.”

Ver edição em papel- Notícias da Beira 20/10/2022